Estado de suficiente.

  


  Eu poderia inaugurar este texto com um inventário dramático sobre quem eu sou — traumas, medos, epifanias às três da manhã — mas isso seria reduzir demais uma mulher que não cabe em rótulos minimalistas. Definir-me exige menos confissão e mais nuances. Sou objetiva, pouco afeita a rodeios e absolutamente intolerante a desperdícios — de tempos, de energia, de afeto. Relacionamentos superficiais me entendiam como conversa de elevador. 
 Ainda assim. ironias das ironias: o que sei eu sobre relacionamentos? Colecionei experiênciasm como quem testa sabores num cardápio vasto demais. Dois encontros aqui, um namoro longo ali, algumas histórias que mal chegaram ao segundo ato. O saldo? Nada é permanente — e talvez aí resida o encanto. O amor não é o monumento; é movimento. Ele não dura para sempre, ele se transforma. E às vezes isso já basta. 
  São 5h36 da manhã. A cidade dorme, e eu, heroicamente, sacrifico o sono por mais um episódio da Netflix. A solidão me visita — não como vilã tráfica, mas como companhia silenciosa. Curiosamente, não me sinto sozinha. Ou não o tempo todo. Há dias em que sinto falta de um espaço só meu; em outros, percebo que sempre estive nesse espaço.
  É irônico, certo?
 Tenho dividido minha vida em capítulos, como se fosse uma tese em andamento:
 — A fase da juventude audaciosa, onde os sonhos eram maiores que o medo. 
 — A fase da responsabilidade inevitável, onde amadurecer não foi escolha, foi exigência. 
 — A fase da desilusão lúcida, quando compreendi que expectativa é esporte radical. 
 — A fase da reconstrução, em que aprendi a ser meu próprio resgate. 
 A vida, dizem, é um jogo. Discordo parcialmente. Não é só vencer ou perder — é aprender as regras enquanto joga. E, sobretudo, é escolher. Escolhas são o verdadeiro enredo. Fiz escolhas ruins? Sim. Fiz escolhas brilhantes? Também. Algumas me envergonham, outras me orgulham, todas me ensinaram. Hoje sou mais consciente, mais firme - mas ainda carrego a contradição de afastar pesosas antes que possam partir. É meu jeito preventivo de ludar com o abandono: melhor não começar do que terminar. Dramático? Talvez. Honesto? Com certeza. 
 Refugio-me no meu casulo moderno — sofá, tela iluminada e histórias alheias que parecem sempre mais organizadas que a minha. Filmes oferecem finais fechados, trilhas sonoras oportunas e conflitos que cabem em duas horas. A vida real não tem roteiro tão generoso. Ainda assim, há algo valioso nisso tudo: a consciência de que viver é raro. E precioso. 
 Descobri que felicidade não é euforia constante; é suficiência. É aquele estado em que você nãp precisa de mais nada para se sentir inteira. Não porque tenha tudo, mas porque reconhece que o agora já o bastante.
 Ainda não alcancei plenamente esse estadi. Mas sinto que estou próxima. Quero uma cadeira de madeira gasta pelo tempo, uma mesa simples, uma casa despretensiosa com vista para o mar. Quero escrever enquanto o vento atravessa a janela. Quero andar descalça na areia, deixar pegadas que o mar possa apagar — não por acaso, mas porque aorendi que impermanência também é poesia.
 Quero ser suficiente para mim. E, se alguém vier, que venha leve — sem bagagens emocionais transformadas em cobrança, sem a missão de me reformar. Que venha disposto a construir futuro, não a revisitar ruínas. E se essa pessoa não chegar? Ainda assim quero o meu estado de suficiente. Comigo mesma. Com quem já escolheu ficar.   
 No fim das contas, é simples. 
 E a simplicidade, quando é verdadeira, é quase revolucionária. 

 Ellen Roza

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