Minha nova versão

 Hoje resolvi me dar ao luxo de sentar na sacada e encarar o sol, que finalmente decidiu encerrar sua greve de fome após dias de um cinza digno de filme noir de baixo orçamento. Não que eu esteja reclamando da chuva; eu até gosto. Dias nublados são o convite perfeito para a gente se enfiar num casulo, vestir aquele pijama que já viu dias melhores e fingir que a introspecção é uma escolha estética e não apenas preguiça de interagir com a humanidade. É o cenário ideal para ficar à vontade com a própria companhia, o que é ótimo — até que o seu subconsciente resolve que é uma excelente ideia organizar um "Festival de cinema de terror: Edição Relacionamentos passados"
  Pois é. Do nada, o mormaço trouxe à tona sonhos com aquele ex-noivo. Sim, o "número um". O pioneiro. Aquele que me assumiu perante a todos, e com quem gastei cinco anos da minha vida — cinco anos que duraram aproximadamente uma era geológica. 
  Foram tempos tortuosos, uma verdadeira escola de sobrevivência onde a disciplina principal era "Como Ignorar Sua Própria Dignidade 101". Naquela época, eu tinha pelo meu amor - próprio o mesmo respeito que uma adolescente tem pelo horário de recolher. Eu aceitava migalhas com uma gratidão constrangedora, como se fossem um banquete de cinco pratos, simplesmente porque eu tinha a convicção absoluta de que o "cardápio" da vida não reservava nada além daquilo para mim. 
  Mas, por que raios eu ando sonhando com ele agora? Que tipo de peça meu cérebro está tentando pregar? Talvez seja a minha nova versão atual, essa mulher que não aceita nem café morno, quanto mais desrespeito, olhando para trás em choque e com deboche. É como se a "Ellen de hoje" estivesse fazendo uma auditoria fiscal da "Ellen de 20 anos atrás" e gritando: "Amada, como você não viu esse rombo no orçamento emocional?"
  Eu amadureci, e não foi pouco. No caminho, tive outros namorados, outros noivos, outros enredos. E a cada novo "fim de mundo", uma parte daquela garota ingênua morria sendo substituída por algo mais rígido, mais inteligente, talvez um pouco mais cínica (no bom sentido, claro). Eu sou um cemitério de versões antigas que deram lugar a essa mulher que, se recebesse o "mínimo" hoje, provavelmente riria na cara do sujeito antes de indicar a porta de saída.
  Às vezes, ne pego pensando: como seria a minha versão 2,0 (ou 5.0, perdi a conta), lidando com ele? O roteiro seria mais curto. O relacionamento que durou cinco anos de submissão e medo de ser rejeitada não duraria quinze minutos na mão da mulher que sou hoje. Naquela época, o medo de ficar sozinha era maior do que o meu medo de ser infeliz. Que matemática burra a gente faz quando não se ama, né? 
  Eu não fazia ideia do que era autoestima. Eu achava que era algo que se comprava na farmácia ou que vinha de brinde em um elogio barato. Hoje, eu sei que é um músculo que a gente treina apanhando da vida até aprender a bater de volta.  
  Sobre ele? Honestamente, não sei em que atualização de software ele está. Espero, no fundo do meu coração sarcástico e regenerado, que ele tenha evoluído para uma versão melhor. Sei que se casou e tem um filho. Mas, se não evoluiu, o problema também já não é meu. Enquanto isso, sigo na sacada, aproveitando o restinho do sol do dia e agradecendo por ter trocado o medo de ficar sozinha pela deliciosa liberdade de ser minha melhor companhia. 



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