Minha psicóloga (uma santa com paciência infinita) sempre diz que “todo mundo precisa de terapia” e que “todos carregam suas feridas”. Tudo muito poético. O problema é ver quem se recusa a pisar no consultório e prefere praticar malabarismo emocional na corda bamba da vida, jurando que vai se curar por conta própria. Até dá para se curar sozinho, claro... se você tiver séculos de tempo livre e uma maturidade sobre-humana. Duas coisas que me recusaram na entrega do meu kit de sobrevivência.
Minha trajetória nunca foi exatamente exemplar, mas guardo os detalhes sórdidos a sete chaves. Se pudesse, jogava certas memórias num cofre e atirava a senha na fossa das Marianas.
Li sobre tratamentos para apagar traumas e confesso a tentação. Afinal, há coisas que nem para a terapia eu levei. Falar sobre o lixo varrido para debaixo do tapete significa reviver o incêndio. Que tipo de masoquismo chamamos de “cura”?
No momento, estou na minha primeira semana oficial de tratamento para ansiedade e depressão com psiquiatra (e uns três meses com a psicóloga). Tive o bom senso de buscar socorro antes de virar uma estátua na cama — já estive nesse buraco e a vista é péssima. A mente humana é um hospício fascinante.
Na sessão de terça, o assunto foi meu pai, com quem mantenho uma relação meio... torta.
Meus pais se casaram jovens demais porque a biologia não espera a maturidade. Eu fui o “presente divino” que forçou o matrimônio para salvar a honra das famílias. O resultado? Um adolescente de 17 anos brincando de pai de família. Homem sem rédea curta já demora para amadurecer naturalmente; imagina aos 17. E antes que os justiceiros da internet apareçam: sim, sei que existem exceções. Não sou burra de achar que todo homem é a mesma coisa. Sei que há aqueles que são obrigados a amadurecer às duras penas da vida, e com meu pai não foi diferente.
Não odeio meu pai. É tudo passado, vida que segue, mas o estrago ficou. A compensação é que hoje sou a mãe: presente, aberta e atenta. Colho diariamente os frutos de não repetir o roteiro original. Maternidade, aliás, é uma arte de pisar em ovos para não traumatizar a próxima geração.
Não odeio meu pai. É tudo passado, vida que segue, mas o estrago ficou. A compensação é que hoje sou a mãe: presente, aberta e atenta. Colho diariamente os frutos de não repetir o roteiro original. Maternidade, aliás, é uma arte de pisar em ovos para não traumatizar a próxima geração.
A vida é uma caixinha de surpresas extraordinária, e ligeiramente sádica. Não acha?